terça-feira, 6 de maio de 2008

Alagoas: dois campeões

Crônica
Não, não estou falando do CRB e do CSA, sagrados, merecidamente, campeões regionais, respectivamente ontem e hoje, o primeiro na categoria juniores e o segundo na profissional. Refiro-me a campeões desta última. Em Alagoas há, hoje, dois campeões. Ambos com mérito. Um, já registrei acima, é o alvi-celeste. O outro é o Flamengo. Sim, o rubro-negro carioca!

É impressionante a festa que fizeram — devem estar, ainda, acho (são 23:30h do domingo, neste momento) — os torcedores do time do Rio de Janeiro na capital das Alagoas, seja por torcedores do CSA, que se sentiram agraciados duplamente com os dois campeonatos vencidos, seja pelos do CRB, que enxergaram no clube da Gávea um alento frente ao insucesso do seu time nativo, seja, certamente, pelos do ASA, que viram no Flamengo um consolo ainda maior à queda frente ao time do Mutange.

E assim, no fim das contas, todos tinham algo a comemorar, um clube para exaltar, uma razão para alegrar-se, um motivo de júbilo para encher os bares e desfilar com suas bandeiras em buzinaços pelas ruas de Maceió. Não comparável, naturalmente, aos tão-somente torcedores do azul, ou aos rubro-negros-azulinos — vencedores duas vezes —, mas, de qualquer modo, entre mortos e feridos salvaram-se todos.

Ops! Quase todos. Para aqueles torcedores exclusivamente do ASA ou do CRB, ou destes junto a outro time do Rio de Janeiro ou São Paulo (exceto o já citado Flamengo e o Palmeiras) não houve consolo, não restou alternativa. Tiveram mesmo que amargar a derrota (ou insucesso) experimentado na jornada.

Aí fiquei pensando... Acho que a melhor saída para evitar o sofrimento por uma disputa mal-sucedida é mesmo torcer por vários times, de vários estados. Assim, você pode torcer pelo da terra, por um do Rio, outro de São Paulo, quem sabe algum de Porto Alegre, além, deixa ver, de Belo Horizonte. Pronto! Não é possível que você não venha a ter motivo para comemorar. Mais: você poderá associar-se e contribuir financeiramente com todos (repartir o pão é belo), inclusive quando jogar na Timemania, afinal você terá vários times do coração. E o melhor: não precisa se preocupar com o destino do time de sua cidade. Afinal, no seu insucesso — ou morte, que importa? —, você sempre terá a televisão para torcer pelo de fora. Legal.
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Escrito nos últimos minutos do domingo (04/05)
Tb publicado no sítio Futebolalagoano.com

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Torcedores do ASA: bela lição

Crônica
Não foi o fato de o jogo ser à noite, no meio da semana, e em Maceió, que desanimou o torcedor do ASA a comparecer ao Trapichão na última quarta-feira (16/04), para apoiar seu time. Compareceu, e em bom número, considerada a média de público do alagoano. Havia torcedores do alvinegro na parte da arquibancada que lhe fora reservada e nas cadeiras. Proporcionalmente, repito, e consideradas as circunstâncias adversas já referidas, foi um ótimo público. Não foi, tampouco, uma torcida silenciosa. Algumas vezes foi a torcida que mais se fez ouvir no estádio.

Não foi o fato de o jogo seguinte ser num domingo (20/04), véspera de feriado, que desanimou o torcedor do ASA a comparecer ao Coaracy, em data de ontem, para apoiar seu time. Praticamente lotou as arquibancadas que lhe foram reservadas, além das cadeiras, estas tomadas na sua quase totalidade por torcedores arapiraquenses. Deram um espetáculo à parte, uma lição de humildade, de confiança, de valorização, de vibração, de alegria, de amor ao clube, às suas cores, à sua terra.

Fui aos dois jogos. Num futebol tão desprezado, achincalhado, traído e desorganizado como é o alagoano, deu gosto de ver o interesse e a participação do torcedor do ASA. Parabéns ao ASA, por seus torcedores.

Quanto aos do CRB, parece que se tornaram “de época”. Como carnaval, por exemplo, que tem “de época” e “fora de época”. A época, para seus torcedores? Apenas o Brasileiro da Série B. Campeonato alagoano seria “fora de época”, muito ruim, “vou não”. Só isto para explicar a ausência quase absoluta no Coaracy, ontem, e a pouca presença no Trapichão, na última quarta-feira. Resta dar os parabéns aos que ainda são “de todas as épocas”.
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Escrito em 21/04/2008
Tb postado no sítio Futebolalagoano.com, em 22/04/2008

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Retrato do desinteresse

Crônica
Minha Mãe do céu... (com todo respeito à Mãe de Nosso Senhor, por estar sendo trazida a uma crônica mundana), é impressionante o desinteresse dos torcedores de CRB e CSA em assistir aos jogos de seus próprios times, inclusive quando jogam entre si, o que é ainda mais triste — embora há muito deixou de ser surpresa —, como pude constatar (mais uma vez!).

Ontem, no Trapichão, repetiu-se o fiasco verificado no Coaracy. E se foi menor, porque maior o público presente, proporcionalmente talvez tenha sido até pior, já que o jogo se deu na casa das duas torcidas respectivas. Oficialmente, não havia 5.500 pessoas. Alguns dizem que havia mais. Não sei. De qualquer modo, enganados ou não, de novo assistiu-se ao Clássico dos Gatos Pingados.

O desinteresse é fato. Quais as razões, desta vez? A insegurança dentro e fora do estádio? Penso que não. Dentro, ao contrário de algumas previsões alarmantes, a divisão do estádio, partindo do centro das grandes arquibancadas em direção aos extremos, pareceu-me a melhor providência até hoje tentada. Os torcedores, de um e de outro time, simplesmente não se encontram. Talvez o número de policiais tenha sido pequeno, mas isto cabe à área responsável avaliar, para o futuro. Fora do estádio, aí sim, o resultado foi aquém, muito aquém do desejado, merecendo ser aprimorado, sem dúvida. Seja como for, a insegurança não me parece traduzir a causa do desinteresse. Fosse assim, um Bahia x Vitória não encheria seu estádio, ou um Sport x Náutico, e por aí afora.

Na verdade, penso que o motivo principal reside no interesse pelos jogos de clubes de fora, ontem televisionados, além do próprio CSA x CRB, também transmitido pela TV. Ou se desconhece que a parcela dos torcedores azulinos e regatianos que também torcem por clubes do sudeste do país estava à frente da TV na tarde de ontem? Urge o fortalecimento dos times de Alagoas. Mas a torcida precisa apoiar. Aliás, a transmissão do jogo alagoano para a capital foi um desserviço ao futebol da terra, nota ruim nesse bem-vindo trabalho da TV Pajuçara/Record.

Ora, se torço por um time de fora, além do da minha terra, é porque acho que o meu não presta, ou presta pouco. E aí, na hora “h”, não é nada difícil optar-se pelo de fora, mais rico e poderoso, até porque gostamos do que é dos outros. E como! Entretanto, observe se um carioca, paulista, gaúcho oumineiro torce por clube de outro estado? Ou um recifense? E é por isto que este tema vem se tornando tão recorrente. De qualquer sorte, resta a conscientização, que é, entretanto, lenta. Mas água mole em pedra dura...
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Também postado no sítio futebolalagoano.com

terça-feira, 8 de abril de 2008

Bons ventos no futebol alagoano

Crônica
Em primeiro lugar — não por ordem de importância —, o bom desempenho dos mais tradicionais clubes do estado, CRB e CSA, no Campeonato Alagoano/2008, é um ótimo vento. Fazia muito tempo que seus torcedores não se viam realmente entusiasmados com seus clubes no certame estadual. E penso que a última derrota sofrida por cada qual não alterou esse quadro.

Às vésperas do seu início, o CSA vivia uma crise gravíssima, amplificada pelo tumultuado afastamento da diretoria anterior, que até então vinha mantendo o time vivo com a realização de diversos amistosos, parceria com o Capelense, e contratações apalavradas para a temporada/2008. Mas surpreendentemente recuperou-se, contratou jogadores experientes e foi às semifinais. Agora, no 2° turno, e de técnico novo, está novamente classificado.

O CRB, depois da boa campanha no Brasileiro da Série B/2007, começou o novo ano com o fortalecimento de sua diretoria: 4º colocado no Regional e 8° lugar no Brasileiro, parcerias com o Atlético/MG e com a RT Sports mantidas, expectativa (depois não confirmadas) de manutenção da base do time da Série B, e contratação, já para o Alagoano, do novo ídolo da torcida alvirrubra, Jr. Amorim. Entretanto, tão-logo iniciado o certame, viu-se um time formado em sua quase totalidade por garotos, conduzidos por um técnico que, infelizmente, não convenceu. Resultado: péssima campanha no 1° turno. Agora, porém, e, como o arqui-rival, também de técnico novo, encontrou seu melhor futebol até aqui, encontrando-se, atualmente, na liderança de seu grupo.

Tudo caminha, portanto, para um grande jogo no próximo domingo — nos moldes dos emocionantes clássicos já vividos por seus torcedores, principalmente os mais velhos —, quiçá, também, nas semifinais que se avizinham.

Em segundo lugar, destaco a excelente, pacífica e respeitosa campanha “Torça apenas pelo time do seu estado”, lançada por um grupo de jovens torcedores regatianos. É, talvez, a melhor coisa acontecida no futebol alagoano nos últimos anos. Porque o futebol desta terra agoniza não só por causa de alguns dirigentes ao menos incompetentes que já passaram, ou da mídia grande do sudeste/sul (ou mesmo de parcela da alagoana), que nos entopem de futebol carioca e paulista goela abaixo, cooptando nossos ex-jovens de ontem e os de hoje. Nós, torcedores alagoanos, temos imensa parcela de responsabilidade, seja quando valorizamos os clubes de fora em detrimento dos nossos, seja quando simplesmente nos omitimos, deixando de prestigiar nossos times no campeonato regional.

Que esses ventos, então, soprem, soprem muito no futebol das Alagoas. Benditos sejam.
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Tb publicado no sítio futebolalagoano.com

quarta-feira, 2 de abril de 2008

CRB (AL) x Flamengo e Vasco (RJ)

Crônica
Zoada danada porque o Presidente do CRB formalizou pleito junto à Federação Alagoana de Futebol – FAF para que o jogo entre o Galo e o Murici fosse antecipado para o sábado (05/04). Segundo soube, assim agira em atendimento a pedido realizado por alguns torcedores que então se encontravam na Pajuçara, provavelmente mistos (ao mesmo tempo alvirrubros das Alagoas e rubro-negros ou alvinegros “cariocas”).

Alarde ruidoso, mas, francamente, não entendi a razão para tanto. Afinal, para atender o pedido, o Presidente do Galo deve ter pensado, unicamente, na renda do jogo. Simples: se por causa do jogo Flamengo x Vasco, que seria (como será) televisionado para Maceió no mesmo domingo, o número de torcedores do CRB poderia ser maior não o houvesse, então que fosse antecipado, preservando-se, teoricamente, a possibilidade de renda maior.

Ora, não caberia ao Presidente, por óbvio, e por mais desgosto que isso lhe pudesse causar, fazer ouvidos de mercador aos apelos multicolores realizados na própria Pajuçara. Com efeito, por pior que seja imaginar-se importante a ausência de concorrência, para garantir o comparecimento ao Trapichão dos torcedores (mistos) do Galo, não seria racional esperar do Presidente uma atitude passional ou orgulhosa. O Clube precisa da renda. Paciência.

O lamentável, na verdade, não é a atitude do Presidente, que está com um olho no jogo e outro nas finanças do clube. O lamentável é constatar que essa é a nossa realidade, a realidade do próprio futebol alagoano, que transcende, inclusive, os seus torcedores. Havendo um jogo, na TV, de qualquer um desses clubes grandes do sudeste do país (e até do sul), cá está um exército de alagoanos prontos para festejá-los, torcer apaixonadamente por eles, exaltá-los, jurar-lhes amor eterno e carregá-los no peito pela cidade, envergados em suas camisas passadas a ferro com o desprezo pelos clubes da terra.

Bem recentemente, estava passando por um bar na Jatiúca quando ouvi, em altíssimo e bom som, um coro de numerosas vozes alagoanas(?), acompanhadas de ritmada percussão, a cantar em louvor ao Corinthians Paulista. Após certificar-me de que estava mesmo em Maceió, de que não havia, por exemplo, sido abduzido por extraterrestres e jogado na capital paulista, continuei o meu caminho, com uma irresignação meio triste, mas de auto-estima renovada por torcer pelo CRB e pelo futebol das minhas Alagoas. Somente.

Ao final, decidiu-se que o jogo do Galo será mesmo no domingo. Ótimo. Muito melhor assim. Os (verdadeiros) regatianos estarão no Trapichão.
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Também publicado no sítio futebolalagoano.com

quarta-feira, 26 de março de 2008

Degringolando. Mas tem jeito

Crônica
O sonho de um futebol alagoano forte aparenta estar cada vez mais distante. Nenhuma novidade. Mas o que preocupa, a todos que curtem ver um bom jogo de futebol — torcendo, em pessoa(!), por times de sua terra —, é que o processo permite supor-se coisa pior por vir. O preocupante é que os problemas do nosso futebol — criados e marcados ao longo do tempo pela incompetência quase generalizada, quando não pela exploração perniciosa e desonesta dos que o fazem —, além de antigos e enormes, não param de crescer. Isto apesar das boas intenções que se consegue identificar, mas só pontualmente, aqui e ali.

Imaginava termos um dia pelo menos quatro times de Alagoas divididos entre as Séries B e C do Brasileirão. Eventualmente, um ou outro ingressando na 1ª Divisão. Sonho? É sonho, sim. Mas embora o sinta, cada vez mais, um sonho, a convicção de que nós é que não o deixamos tornar-se realidade é, por outro lado, inabalável em mim.

Veja-se, por exemplo, o atual Campeonato Alagoano. Já se inicia contrário à lei, alterando-se as regras antes do prazo permitido. Detalhe: com a aceitação de todos os clubes participantes. Ótimo. Afinal, o modo de disputa anterior, por pontos corridos, era ruim mesmo. Mas e se houvesse (houver) problemas no decorrer do certame e se questionasse (questionar) a ilegalidade na justiça?... Terá valido a pena a mudança? E a sucessão de jogos? Nossa Senhora! Menos de 48 horas entre um e outro! E o Penedense? Sai ou não sai? E se sair, leva tudo junto pro buraco? E o Clássico dos Gatos Pingados? Caso à parte. Outrora “das multidões”, os valorosos cerca de dois mil torcedores — verdadeiros apaixonados pelos um dia grandes CRB e CSA — tiveram que se deslocar a Arapiraca, distante 130km da sede de seus clubes, debaixo de chuva e em pleno feriado da Semana Santa! Por quê? Porque o Trapichão foi injustamente condenado, e não se faz nada para absolvê-lo.

Falando na interdição, o que dizer-se de ter ocorrido às vésperas do início do campeonato, embora sem jogos desde novembro de 2007? Protestos houve, principalmente do CSA — que ali então depositava esperanças de melhorar seu combalido caixa, embora não mais vazio do que o de CRB ou ASA —, mas não foi ouvido. Quando se percebeu que o estádio certamente não estaria pronto sequer para o primeiro jogo do CRB na Série B, a gritaria ganhou mais vozes e maiores volume e acústica, mas até agora não se vê esteja algo sendo realizado. A inoperância, a incompetência, a omissão dos (ir)responsáveis é de tal ordem que o cansaço faz perguntar: tem isso jeito (ou terá um dia)? Será que é porque são flamenguistas, vascaínos, são paulinos? Ou o raio que os parta?

E o CRB? Quatorze anos de Série B e vive, literalmente, na pindaíba. Quatorze anos naquela vitrine nacional e não conseguiu tirar proveito disso! É espantoso, meus caros. E a culpa não é desse pessoal que está aí, não, bem entendido. Pelo contrário! Podem não ser os bam-bam-bans do negócio, mas, embora meio de longe, a gente vê pelo menos dedicação e seriedade no trabalho que tentam desenvolver.

E nós? Hum, nós também contribuímos, sim! E muito! Contribuímos quando nos comportamos, em relação aos nossos clubes, como aqueles pais que renegam o filho porque não é o mais inteligente, o mais bonito, o mais alguma coisa, e, ato contínuo, dividem (quando dividimos!) o amor com os de fora, por sua vez totalmente estranhos a nossa vida, realidade, raízes e história; quando deixamos de ver o nosso time, no estádio, para assistir pela TV ao de fora — tornado filho por escolha, porque lindo, rico, perfeito e poderoso; quando, mesmo podendo, somente apoiamos os nossos times se ele estiver bem na disputa, apresentando um bom futebol; quando nos omitimos e não os defendemos, mesmo percebendo que os estão maltratando (ou coisa pior).

Dra. Helena, a maravilhosa psicóloga que um dia tive o prazer, a honra e o orgulho de apresentar ao CRB, naquela já longínqua Série B/2006, disse-me certa vez: amor de verdadeiro torcedor é como amor de mãe: incondicional. Ama em qualquer circunstância. Seja feio ou bonito, doente ou sadio... Na maioria das vezes amamos nossos clubes sob condições. Isto nós podemos mudar.
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terça-feira, 18 de março de 2008

Sobre mistos: algumas reflexões

Crônica
Final do ano passado, escrevi sobre o tema a crônica “Cada vez mais, Suassuna”. Senti a necessidade de fazê-lo de novo. Falo daquele que torce por dois clubes de futebol ao mesmo tempo. Um, de seu Estado, e o outro, de fora de sua região, normalmente do eixo RJ/SP. Em Alagoas, tais torcedores são referidos por alagoriocas e alagolistas. Mais pejorativamente, paraibacas. Registro, de antemão, o meu respeito. O que não significa que tenha de achar legais essas opções. Meio de brincadeira, digo que existe uma gradação nessa “mistura”. É que há uns que são mais (ou menos) mistos do que outros.

No centro, bem no meio estão os supermistos. Misturadíssimos ao ponto de não saberem por que time torceriam estivessem os “seus” disputando uma partida de futebol entre si. Puxa, que dilema, hein? A solução para eles é o empate. São os supra-sumos, perfeitamente mistos. Difícil deixarem de sê-lo, mas é possível.

Nas extremidades estão os imperfeitos. Não são misturados igualmente, meio a meio, como os suprasumos. São os regionais, que torcem mais pelo clube do seu Estado do que pelo de fora, e os estrangeiros, que torcem mais pelo de fora. Quanto a estes últimos, “jogue a toalha”, pois já se decidiram. Os regionais podem, sim, mudar para falsos puros (veja adiante). Pelo menos a sua preferência já é pelo time de dentro. Têm mais chance do que os supermistos.

Finalmente, ao redor há os falsos mistos e os falsos puros. Os primeiros dizem torcer pelos dois, como se supermistos fossem, mas na verdade só torcem mesmo pelo de fora, no fundo até desprezam o de sua região (pior do que os estrangeiros: praticamente impossível a conversão às raízes). Os segundos são pré-mistos (ou simpatizantes): simpatizam com o clube de fora, mas neles não se verificou a mistura (é meio óleo na água, percebe?). São quase torcedores de um time só (o do seu Estado). Não há com que se preocupar, porque os pré-mistos somente demonstram sua preferência pelo time de fora em situações excepcionalíssimas, onde não há nem sombra do seu time do coração por perto. Seus recursos, esforços e seu amor têm destinatário e dono exclusivo: o time do seu Estado. Exemplo: contribuem com “campanhas”, como a de sócio-torcedor, assistem aos jogos no estádio (pagando o ingresso!), adquirem a camisa do clube da terra, marcam exclusivamente o time do seu Estado na “TIMEMANIA”, jamais trocariam assistir a um jogo do seu clube, por um de que participe o time por que simpatiza, e por aí vai.

Brincadeiras à parte, mas que eles existem, com as características citadas acima, existem, sim! E tenho a convicção de que essa circunstância — de haver tanto alagoano torcedor de clubes do sul/sudeste — é extremamente prejudicial ao futebol alagoano, além de significar, essencialmente falando, desprezo pelo futebol de sua região. Isto é, pelo “seu” futebol! Que não é o do Rio de Janeiro ou de São Paulo, mas o das sofridas, pequeninas, maltratadas, exploradas, saqueadas, mas belas e valorosas Alagoas. O prestígio ao futebol de nossa região, ao contrário, conquanto igualmente sofrido e, não raro, (mal)explorado, como, de resto, muito do que somos e temos, reforça e nutre a nossa auto-estima.

Auto-estima, porque temos a mania (já é cultural, infelizmente, vide o “Se no Recife tem, na Casa do Colegial também tem”, que ouvia desde pequenino) de só dar valor ao que é de fora, ao que é dos outros, e aos outros. Imitamos e enaltecemos seu modo de vida, suas gírias, seus gostos... até seu sotaque pagamos o mico de imitá-lo (quem nunca percebeu algum conhecido, já até de barba na cara, chiando após passar um reles fim de semana no Rio de Janeiro?).

Outro dia, conversando na Pajuçara com um lateral recentemente vendido ao futebol carioca, quase deixei-o falando sozinho. O cara tava mais carioca do que o da gema! Como diz aquele ator de teatro: Ô mulé, deu uma pena...! É que ele quer ser um deles, ora bolas! E se envergonha de suas origens... Outra: há pouco tempo um colega, pretendendo justificar sua predileção por um clube de São Paulo/SP, disse-me que o fazia pela mesma razão porque se quer ter o melhor celular, o melhor carro, etc. Putz, confesso que me bateu uma tristeza danada ouvir aquilo...

Mas não é fácil — há de se compreender — resistir à colonização massificada e diuturna da grande mídia (e às vezes até de integrantes da própria mídia esportiva tupiniquim), que incansavelmente nos bombardeia com a divulgação, publicidade, destaque e exaltação dos clubes de seus Estados (notadamente Rio de Janeiro e São Paulo), condenando-nos a conhecer as suas competições regionais e, pasmem, até a assistir, em horário nobre de TV, a jogos dos ditos grandes contra os minúsculos de lá, num total desprezo a nós mesmos e aos clubes de nossa região, muitas vezes com os aplausos efusivos dos conterrâneos que enaltecem os times de fora em detrimento dos dele, ou melhor, dos de suas raízes.

Há alguns alentos, porém, que nos fazem acreditar em mudança. Parte da imprensa vez por outra toca no assunto, ressaltando a importância de resgatarmos nossa auto-estima, torcendo por nossos clubes em detrimento dos de fora. Alguns valorosos torcedores regatianos, por sua vez, que diariamente estão no fórum do sítio
Futebolalagoano.com, lançaram a excelente campanha “Torça apenas para o time de seu estado”, para, pela via respeitosa do exemplo, sensibilizar os mistos em geral a darem valor ao futebol do seu Estado, ao que é seu, a si mesmos. Os pernambucanos, nossos vizinhos, são um ótimo exemplo a ser seguido. Em primeiro, segundo, terceiro, quarto lugares..., os times deles. Admirável!

Não podemos e não devemos idolatrar os times de fora. Como temos nossos amigos, nossos pais e irmãos, nossa casa, nossa cidade, nosso cachorro vira-lata (e não os trocamos por ninguém ou por nada), também temos nossos clubes! Não são maiores, em grande parte porque nós não lutamos por eles, não os valorizamos, nos omitimos, não os amamos incondicionalmente. Não são ricos, porque deixamos que os explorem, porque somos passivos, porque negamos nosso socorro. Só a receita pela venda de camisas de clubes de fora, que vemos tristemente desfilando pela cidade, já seria de enorme ajuda aos clubes da terra, fossem dos da terra a maioria das camisas que se vê nas ruas. Não podemos esquecer que somos alagoanos (ou aqui nos fixamos). Somos nossos clubes. Somos CRB, CSA, ASA; somos Ipanema, Penedense, Murici, Igaci, Santa Rita, Corinthians Alagoano, Coruripe. Somos nossa história, nossas raízes, nosso chão. Brio, amor e orgulho. Do que somos e do que temos. Temos futebol! Quando a gente não dá valor ao que é e ao que tem, é a auto-estima que se perde. Sem auto-estima é o fim. Acordemos!
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Também publicada nos sítios Futebolalagoano.com e CRB-Net